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TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR TAB E A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

TRANSTORNO AFETIVO BIPOLAR TAB E A PSICOLOGIA TRANSPESSOAL

por Vera Pizzichini Saldanha*

A busca do equilíbrio emocional tornou-se uma urgência em um mundo extremamente desafiador, com inúmeras exigências, e em curso uma pandemia mundial, sem precedentes, que pode desestabilizar muitos indivíduos.

Claro que diante deste cenário nos chegam pessoas com oscilações de humor e momentos de maior desesperança com muitas apreensões relacionadas ao futuro ou ao próprio momento presente.

Mas tal como sugere a palavra equilíbrio, há uma certa medida entre os momentos de esperança, tristeza ou até entusiasmo.

Há períodos que o individuo experiencia atividades saudáveis, colaborativas adequadas, mesmo diante de situações externas ameaçadoras.

A saúde mental nos é revelada exatamente em função da atitude do individuo diante dos fatos da vida; sejam eles bons ou ruins.

Não é o que acontece ao nosso redor que provoca um transtorno de humor, mas sim a percepção que temos desse fato.

Pierre Weil (1924-2008) psicólogo francês, sempre evidenciava que essa percepção dos fatos, de como percebemos as situações da vida, nosso mundo externo e interno, dependerá essencialmente do nosso estado de Consciência.

Sim, todos nós seres humanos passamos por diferentes níveis de consciência; assim a percepção do indivíduo está diretamente ligada ao estado de consciência no qual ele se encontra naquele momento ou etapa de sua vida.

“A Consciência na Psicologia Transpessoal, é a expressão e reflexo de uma inteligência cósmica que permeia todo o universo. Somos campos ilimitados de consciência, transcendendo tempo, espaço, matéria e causalidade linear. Estados não comuns de consciência são manifestações da psique humana. Emergência desses estados pode ter fins terapêuticos”, afirma o psiquiatra Stanislav Grof (1931), nascido em Praga.

A consciência de vigília, provavelmente é a qual com que se está lendo agora essas reflexões, e indica apenas um dos níveis dessa consciência muito mais vasta e abrangente.

Dessa forma, será o nível de consciência que o indivíduo estiver, que dará a percepção, significado e provocará ações ou reações diante do próprio mundo interno, ou das situações de fora de si, no mundo externo.

Esse estado de consciência é o que trará o tom de ações proativas, ou de reações extremamente descompensadas, independente dos fatos.

A intensidade dessa reação é um fator preponderante como indicador da saúde ou transtorno mental.

De acordo com a discrepância entre o fato ocorrido, e o tipo da reação do indivíduo, irá caracterizar sua sanidade ou insanidade, e terá um diagnóstico que determinará o tratamento.

Os tipos de diagnósticos, claro, são inúmeros, mas hoje vamos focar o Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) ou Transtorno de Humor Bipolar (THB), no qual as reações oscilam entre mania, hipomania ou depressão.

Essas oscilações do humor podem ser intensas ou mais brandas, dependendo do grau em que se apresenta, leve, moderado ou grave. Outro aspecto interessante é o de que esta Síndrome pode ser pautada por períodos de normalidade.

Até a terceira edição do Manual de Diagnostico e Estatística de Transtorno Mental – DSM III, não existia tal classificação. Somente após 1980 se configurou o chamado Transtorno Afetivo Bipolar – TAB ou como também é chamado de Transtorno de Humor Bipolar – THB.

Sintomas similares à essa síndrome eram diagnosticados como Psicose Maníaco-Depressivo, PMD, por envolver aspectos parecidos com a psicose, a mania e a depressão.

Durante certo tempo, acreditou-se que as pessoas que apresentavam esta patologia seriam mais criativas e ousadas, pois artistas, celebridades, certos atores assumiram tal diagnostico publicamente. Claro que isso foi ótimo, no sentido de se minimizar o preconceito que envolve os transtornos de saúde mental, em especial a bipolaridade.

Porém, observou-se que nem sempre é real para todos os indivíduos esse empreendedorismo ou criatividade, além de que as repetidas crises de depressão ou mania vão reduzindo tais habilidades.

Os principais sintomas na mania são o pensamento acelerado, dificuldade de concentração, insônia, ações exacerbadas e compulsivas que envolvem sexo, riscos financeiros, auto exaltação e até delírios e alucinações. Algumas vezes pode predispor o indivíduo ao alcoolismo, à droga, comportamentos agressivos que comprometem as diversas áreas na vida do indivíduo.

Na fase da depressão os sintomas são, desesperança, fadiga, apatia, alteração do apetite, autoestima baixa, culpa, impaciência, desinteresse por atividades profissionais, de lazer, família, redução da libido e até ideia suicida.

É um transtorno que ocupa o 2º lugar como causa de dificuldades profissionais, sendo superado apenas pela depressão.

Atualmente existe a Associação Brasileira de Transtorno Bipolar, inúmeras revistas científicas que divulgam e colaboram com a conscientização do processo de tratamento medicamentoso.

Em geral acomete o indivíduo na adolescência ou adulto jovem e é de difícil diagnostico. Há causas genéticas, ambientais, maus tratos na infância e abusos que podem predispor o indivíduo a esse transtorno. Entretanto além da medicação, hoje já se indica a atenção e cuidado integral com a pessoa que apresente este transtorno.

Medidas chamadas pedagógicas, como estabelecer rotinas, criar hábitos saudáveis, trabalho de orientação com a família, tudo isso pode contribuir para uma vida mais saudável para estes indivíduos.

O olhar para o ser humano que está por traz de um diagnóstico, é um dos aspectos essenciais no método da Abordagem Integrativa Transpessoal, um enfoque de trabalho em Psicologia Transpessoal.

Nesse sentido convidamos o indivíduo a trazer a autoconsciência, por meio de técnicas e ferramentas que ajudam a sua conexão com os diferentes estados de consciência.

Na medida que favorecemos as mudanças dos níveis de consciência, a percepção de si e do mundo, o seu próprio transtorno se torna mais palpável e traz maior lucidez para o indivíduo. Sem excluir a medicação, assim como a importância da rotina, a adesão ao processo terapêutico, as práticas que favoreçam a redução de estresse, como mindfulness, práticas também que trabalham a qualidade de presença no aqui e agora, resultam para esses indivíduos ganhos em sua qualidade de vida e bem-estar.

Há um redirecionamento no equilíbrio da vida do indivíduo quanto ao seu valor pessoal e ao que lhe é essencial. Um maior desenvolvimento da empatia e compaixão por si e pelo outro.

Um aspecto que quero chamar a atenção é o de que na Psicologia Transpessoal existe uma Síndrome denominada de Emergência Espiritual, na qual indivíduos por ela acometidos, podem vivenciar um Processo de Emergência Espiritual ou uma Crise de Emergência Espiritual, na qual sintomas muito similares ao Transtorno Afetivo Bipolar podem acontecer.

Na chamada “Crise de Emergência Espiritual”, podem acontecer euforia, entusiasmo e otimismo exagerados, ou depressão profunda, apatia, desejo de deixar de viver.

Roberto Assagioli (1988-1974), psiquiatra italiano, foi um dos primeiros médicos a reconhecer a Emergência Espiritual, além de Stanislav Grof, David Luckof entre outros.

A partir da publicação da edição do DSM-IV pela Associação de Psiquiatria Americana foi inserida a categoria do diagnóstico de Problema Espiritual ou Religioso, e que incluem entre outros contextos da religião e espiritualidade a Emergência Espiritual.

Hoje a espiritualidade tem sido revisitada, como uma dimensão ampla e profunda da Consciência. Pode gerar doenças quando destorcida, reprimida, ou muito contribuir com a saúde e bem-estar do ser humano.

Quero destacar dois pontos relevantes como tratamento e cuidados no Transtorno Afetivo Bipolar.

Primeiro é essencial se estabelecer um diagnóstico preciso deste Transtorno. Há vários tipos de medicações e estabilizadores de humor que podem auxiliar.

O segundo aspecto, tão importante quanto o primeiro, são as indicações que contribuem neste equilíbrio como medidas práticas saudáveis, desde de respeitar o ritmo circadiano (dia-noite), alimentação, atividades físicas adequadas de acordo com o estágio que o indivíduo se encontra (mania, hipomania ou depressão) e recursos profiláticos durante seu período de normalidade como fundamentais, e principalmente a inserção de uma visão mais ampla do ser humano, integrando a espiritualidade de forma adequada, relacionada ao estágio que o indivíduo se encontre, utilizando trabalhos relacionado à arte, práticas de centramento e outros recursos específicos da psicoterapia na Abordagem Integrativa Transpessoal.

Finalizando, o Transtorno Afetivo Bipolar é complexo e às vezes difícil em sua terapêutica, porque o que se aplica a síndromes similares como tratamento eficaz, não é indicado à Bipolaridade.

Certamente trazer à público reflexões sobre o Transtorno Afetivo Bipolar, inserir visões contemporâneas de saúde, só irá contribuir para o alívio do sofrimento, que acomete milhões de pessoas no mundo todo.

Em síntese, o Transtorno Afetivo Bipolar tem tratamento. Os resultados do tratamento podem ser otimizados quando se tem uma visão antropológica mais ampla do ser humano como bio-psico, social e espiritual, que ampliam os recursos utilizados.

É fundamental um bom diagnostico diferencial, por sua semelhança com outros transtornos, inclusive com a crise de emergência espiritual, transtorno de depressão,

ansiedade, síndrome do pânico, as quais tem formas distintas de tratamento.

Assim como síndromes diversas tem sintomas parecidos, mas origem e tratamentos diferentes, assim também somos nós seres humanos.

A pessoa que é acometida pelo Transtorno Afetivo Bipolar, é única!

Muito além de um diagnóstico, a sua individualidade sempre deverá ser considerada, pois é em sua singularidade, em sua Vida genuína que pode habitar o resgate de si mesmo, do ser pleno e saudável que habita esse indivíduo!

*Vera Pizzichini Saldanha

  • Presidente da Associação Luso Brasileira de Transpessoal (ALUBRAT);
  • Psicóloga, Doutora em Psicologia Transpessoal (FE Unicamp);
  • Autora e coautora de vários livros entre eles: Psicologia Transpessoal, Tratado de Psicologia Transpessoal, Do Brincar ao Sonhar.
  • Autora do livro: Psicologia Transpessoal: Um Conhecimento Emergente de Consciência, Ed. Unijui;
  • Criadora e organizadora da primeira pós-graduação em Psicologia Transpessoal, há mais de 20 anos, com mais de 33 turmas formadas.
  • Palestrante nacional e internacional.

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