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Da criança ferida à criança divina: um despertar para a Vida

Vera Peceguini Saldanha

Este artigo aborda a temática da criança interior, não só sob a óptica da psicologia que enfatiza a criança ferida, mas também traz uma abordagem espiritual na qual se resgata a criança divina que existe por trás de toda criança ferida.

Uma das formas da evolução humana se dá através das lições apreendidas ao longo do tempo no processo do nascer e renascer. A existência de cada indivíduo que nasce serve a um propósito maior a algum tipo de crescimento, aprendizagem ou transformação. A essência espiritual, se faz presente desde  o primeiro instante, e se tornará mais desperta ou não, dependendo das opções e buscas do individuo ao longo de sua existência.

O ambiente cultural, social e, sobretudo familiar também exercerá influências significativas para que este ser evolua e recorde-se de quem realmente é,  cumprindo suas tarefas de maneira saudável, contribuindo para sua evolução pessoal e aprimoramento do ambiente em que vive. Um dia retornará já evoluído, pleno de amor por todos os seres, todas as coisas, inclusive por ele próprio, tendo realizado sua bem-aventurança no planeta Terra.

Bem, esta seria a história perfeita de um individuo que nasceu fez suas melhores escolhas, aprimorou-se e despertou a plena consciência, ou seja, atingiu sua iluminação. Contudo esse processo geralmente se arrasta com apego ao próprio sofrimento e as dificuldades pessoais, familiares, culturais e tantas outras.

O não recordar-se da verdadeira essência, impede de trazer a energia necessária à Vida e lembrar-se do propósito maior desta existência, o qual foi sintetizado pelo mestre Jesus, em suas máximas: “Amar a Deus sobre todas as coisas e amar ao próximo como a ti mesmo”. O esquecimento do amor nos traz inúmeros desvios, sofrimentos e mortes ao longo dos tempos, sobretudo obstrui a conexão do eu pessoal com o eu divino.

O processo de morte e renascimento oportuniza o despertar da verdadeira força espiritual. Essas mortes e renascimentos se reportam não só à morte biológica, mas também a mortes e renascimentos psicológicos dentro de uma mesma existência, denominada em Psicologia Transpessoal como morte e renascimento do ego (Saldanha, 1999).

Esse processo é vivenciado cada vez que ampliamos nossa percepção, mudamos nossas crenças, nosso olhar diante da própria dor e da dor do mundo, possibilitando o renascimento com mais sabedoria, compaixão e amor.

Essa força maior, essa essência que está por trás de toda criação pode ser representada por diversos nomes, dependendo da Tradição espiritual que a nomeia, por exemplo, Cristo, Deus, Buda, Atmam e outros. Na Abordagem Integrativa Transpessoal essa força essencial que a tudo permeia é designada como Unidade, Absoluto e os aspectos de sua manifestação no nível pessoal de Eu Superior e de Supraconsciente ou Inconsciente Superior (Assagioli, 1993).

Essa instância no ser humano é responsável pela capacidade amorosa e criativa de ver o outro lado, a outra face com uma consciência mais profunda e de nos trazer a aprendizagem significativa que existe em toda situação de nossa existência diária.

Esta presença espiritual inerente à nossa humanidade nos permite transitar de nossas dores para a consciência de luz, de nossos medos e temores para o amor incondicional, para a aceitação e confiança em um Ser maior, do qual somos parte.

Ela nos permite que da criança ferida, magoada renasça a criança divina. Aquela que sempre existiu, que ultrapassou dores e ressentimentos, fazendo-nos sobreviver até o momento atual e a seguir adiante, apesar dos obstáculos a serem vencidos.

Somos ainda seres em evolução, nascidos em um planeta de transformação, e as experiências do nascimento e da infância poderão deixar marcas dolorosas. A criança muitas vezes poderá ter sido rejeitada e magoada. Outras vezes as experiências físicas ou psicológicas não foram tão negativas, mas foram percebidas como tais pela criança, seja pelo ciúmes, egoísmo, ou condicionamentos anteriores, deixando na psique o registro de uma criança ferida.

Contudo, independente do grau de dificuldade vivido no plano real ou imaginário a emergência da criança divina poderá purificar a alma, trazer a fonte original de poder e transformação.

O tema da “criança” foi abordado no Evangelho de diferentes maneiras. Uma delas é a que nos recorda de que somos crianças no espírito, na evolução, mas que nessa pequena dimensão criança repousa a centelha do espírito divino em sua pureza original, que confia, busca e se entrega.

Em Marcos capitulo 10, versículo 13-16 conta-se que algumas pessoas traziam crianças para que Jesus as tocasse. Os discípulos, porém as repreendiam. Vendo isso Jesus se aborreceu e disse: – “Deixai as crianças virem a mim. Não as impeçais, porque a elas é que pertence o reino de Deus. Em verdade vos digo: quem não receber o reino de Deus como uma criança, não entrará nele”. E abraçava as crianças impondo as mãos sobre elas, as abençoava.

Este versículo indica que se não resgatarmos aquela essência numinosa da criança concebida, não despertaremos o Reino de Deus que nos habita. Este Reino não é uma realização material, mas sim espiritual, é um estado de consciência mais amplo. Um estado da plenitude, paz, equilíbrio e harmonia. Um Reino de bondade e felicidade. A criança divina é que nos traz o amor incondicional, a confiança original, a leveza para “entrarmos” nesse Reino. A criança divina tem asas, voa acima das limitações humanas, pois se agarra aos “pais” divinos. Esta dimensão psíquica se permite ser protegida, esclarecida e amparada.

A criança divina em suas asas, poderá levá-lo as mais lindas paisagens, levá-lo ao bom, verdadeiro e belo. Ela brinca, tem alegria e espontaneidade. É a manifestação do eu superior, a essência maior que faz a travessia do espiritual sutil ao espiritual manifesto.

Jean-Yves Leloup, no romance de Maria Madalena, descreve a cerimônia do lava pés, que Cristo realizou com os apóstolos, como sendo uma experiência de lavar e curar todos os males da criança ferida, para que então eles pudessem se libertar dos  bloqueios, caminharem levando a Boa Nova que era a mensagem do Cristo Vivo, aquele que não morre jamais.

Assim nós precisamos também cuidar de nossa criança ferida, acolhê-la, legitimar suas dores, mas ir além; não alimentar suas ressentimentos e experiências de injustiças, que só iriam, impedir nossa evolução, não nos deixando enxergar o sentido maior e aprendizagem desta existência.

É necessário ajudar a criança interior, sentida, magoada que às vezes insiste em nutrir e alimentar seu papel de vítima  para ter migalhas de atenção humana, perdendo o grande banquete que Deus lhe oferece de uma vida mais plena para aqueles que ousam caminhar, confiar.

Podemos curar as feridas desta criança, ajudá-la a caminhar, mas, sobretudo recordá-la de que em essência ela é divina. Lembrá-la que uma força maior a fez sobreviver e chegar até os dias atuais, apesar de todas as dificuldades encontradas. Novas oportunidades surgirão e novos passos poderão ser dados. A vida venceu mesmo quando o olhar limitado não conseguia alcançar a amplitude e significado de todo sofrimento.

Esse é o convite: – Despertar a criança divina para receber o Reino de Deus.

Essa é a mensagem: – Seguir em frente, porque dela é o Reino dos céus, da transparência e do amor incondicional.

Por traz de toda criança ferida, há uma criança divina pedindo passagem. Ela nos agradece e nos recompensa, quando permitimos que ela ocupe o seu lugar. Manifesta em nossa vida a simplicidade, a expressão mais pura do amor.

Nela é que reside preciosos tesouros de nossa espiritualidade, tais como a alegria, a entrega, a bondade, espontaneidade e confiança incondicional ao Pai, a grande forma  de Amor  que a tudo criou. Que nos deu olhos para ver, mas que tudo fará para que verdadeiramente possamos enxergar com o nosso coração.  Tal como afirmava o  pequeno Príncipe de Saint Exupéry: – “Só se vê bem com o coração o essencial é invisível aos olhos.” Nossa criança divina, enxerga com coração… , nos desperta para a Vida.

Assim, se você deseja despertar para a Vida, comece desde  já convidando sua criança divina através de uma breve meditação pela manhã que deixamos para você como sugestão. Experimente, vale tentar… a sua criança divina te recompensará…

Você pode fazer esse exercício assim que acordar, deitado, ou se preferir sentado: “Imagine-se em um lugar agradável na natureza, com muita vegetação, flores, e uma fonte cristalina com uma queda d’água. Veja essa água, luminosa, aproxime-se dela, tome-a, sinta o frescor e pureza, após banhe seus pés com esta água. Sinta seus pés sendo lavados por essa água pura que vai curando todas as feridas de sua criança, sinta que essa água tem o poder de purificar todo seu corpo, lavá-lo, limpá-lo de todos os desperdícios psíquicos, tristezas, mágoas, ressentimentos, tudo que passou. Tem o poder de prepará-lo, vitalizá-lo para os próximos passos…

Inspire profundamente… conscientemente…

Sinta que o sol chega até você, trazendo toda energia que você necessita para seu dia, refletindo seus raios luminosos sobre a fonte cristalina, criando um lindo arco-íris. Deste arco-íris sai radiante a sua criança divina, vai ao seu encontro e convida-o para brincar, voar, libertar-se.

Sinta a beleza, a alegria que esse momento lhe traz. Acolha essa criança divina sentindo vitalidade e imenso desejo de viver. Então, vá movimentando o seu corpo, espreguiçando sentindo que essa energia permanece em você, integrando-se completamente.

Você desperta confiante, pleno, com a certeza de que jamais esta só. Renovando sua energia para seus próximos passos deste novo dia; para que você continue cada vez melhor caminhando e semeado as Boas Novas, desperto plenamente para a Vida!

Bibliografia:
AÏVANHOV, Ommraam Mikhaël. Nova luz sobre os evangelhos. Lisboa: Provesta, 1984.
ASSAGIOLI, Roberto. Ser transpessoal. Madrid: Gaia, 1993.
BRADSHAW, John. Volta ao lar: como resgatar e defender sua criança interior. 2ª edição, Rio de Janeiro: Rocco, 1995
C.G. Jung, WHITIFIELD, Gharles L. e outros. O reencontro da criança. São Paulo: Cultrix, 1999.
EXUPÉRY, Saint. O pequeno príncipe. Editora Circulo do Livro, [s,d]
CHOPICH, Erica J,, PAUL, Margaret. O fim da solidão. 2ª edição, São Paulo: Saraiva, 1994.
LELLOUP, Jean-Yves. O romance de Maria Madalena. Campinas-SP: Verus, 2004.
KARDEC, Allan. O evangelho segundo o espiritismo. São Paulo: Petit, 1997.
NARANJO, Cláudio. A criança divina e o herói. São Paulo: Editora Esfera, 2001.
PHILLISP, Rick. A emergência da criança divina. São Paulo: Pensamento, 1998.
SALDANHA, Vera. A psicoterapia transpesssoal. Rio de Janeiro: Redord, Rosa dos Tempos, 1999.

Comentários(6)

  1. REPLY
    Isabel diz

    Gratidão. Excelente texto para reflexão

  2. REPLY
    Isavel diz

    Gratidão imensa querida professora por este belíssimo e tocante texto!
    Quanta beleza!

  3. REPLY
    Isabel diz

    Gratidão imensa querida professora por este belíssimo e tocante texto!
    Quanta beleza!

  4. REPLY
    Aldo Eurípedes Soares De Oliveira diz

    Texto lindo e profundo, Vera!
    Minha criança Divina te abraça!
    Gratidão!

  5. REPLY
    Zilmar diz

    Como é oportuno uma proposta reflexiva, e ainda vindo de uma pessoa respeitadíssima como Vera Saldanha, num olhar transpessoal para cuidar do adoentado ser humano
    Gratidão!!

  6. REPLY
    Isabel diz

    Sempre que releio este artigo, as lágrimas de emoção positiva afloram…
    Amo esse seu jeito de fazer a Transpessoal que eu tenho no coração!
    Saúde e muita luz, professora, doutora Vera!!!

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