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ESPIRITUALIDADE NA ABORDAGEM TRANSPESSOAL

O PRINCÍPIO DA TRANSCENDÊNCIA

Os estudos sobre saúde e espiritualidade passam pelo conceito de transcendência. Para a transpessoal, a transcendência é uma necessidade intrínseca à natureza humana. Não se trata, porém, de algo do mundo divino que estaria fora do mundo material. Conforme observa Vasconcelos (2011), esse pensamento foi herdado da visão dualista da realidade, difundida inicialmente pelos pensadores da Grécia antiga, e posteriormente incorporada pelo iluminismo, que separou o mundo material do mundo espiritual.

Na visão transpessoal, transcendência está relacionada a uma pulsão psíquica que permite ao ser humano ir além dos estados de consciência restritos ao ego. Não depende, portanto, de uma crença religiosa. O termo deve ser entendido como um estado sutil de consciência que conecta o homem à totalidade do cosmos, permitindo ir além de si mesmo e do próprio destino. Trata-se de uma verdade psíquica e pessoal, que pelo fato de ser subjetiva não se torna menos importante. São vivências cheias de significados para a pessoa e ignorá-las seria desprezar um lado de sua personalidade que desempenha papel fundamental no desenvolvimento humano.

Coube a Maslow (apud SALDANHA, 1997; 2008) abrir caminho para esse tema na psicologia transpessoal, abordando as chamadas “experiências de cume”, que incluem sentimentos de êxtase e comunhão com a natureza. Para o autor, vivenciar o aspecto transcendente era importante e até mesmo central. As pessoas que vivenciam esses estados pensam de modo holístico e transcendem a visão dualista. Ele pontuava que sem o aspecto transcendente o homem ficaria doente, violento, niilista e vazio de esperança.

Posteriormente, Weil (1978) desenvolveu uma análise psicométrica para conhecer a incidência do fenômeno conhecido como “consciência cósmica” formulado por Bucke (2000). Constatou que há no homem uma tendência à procura da unidade da existência universal e à transcendência. Essa tendência havia sido denominada por Maslow de “aspecto instintóide”, ou seja, intrínseco à natureza humana.

Saldanha (2008), por sua vez, observou que as descrições de Maslow e Weil estabeleciam uma correlação entre si, podendo ser englobadas num referencial novo sobre o desenvolvimento humano, sob a denominação de “princípio da transcendência”.

Essa percepção oportunizou a inserção de um novo conceito: o processo terciário, que é definido como um conjunto de referenciais inerentes ao desenvolvimento do ser humano que favorece o despertar da dimensão espiritual, propiciando a atualização experiencial de valores positivos, saudáveis, curativos, tanto individual quanto coletivo, caracterizando um processo regido pelo princípio da transcendência. O princípio da transcendência indica um impulso em direção ao despertar espiritual por meio da própria humanidade do ser, da pulsão de vida, morte e para além delas. (SALDANHA, 2008, p. 144)

Assim, no processo de desenvolvimento do psiquismo humano, além do princípio primário, regido pelo prazer, e do princípio secundário, regido pela satisfação de novas necessidades, ambos propostos pela psicanálise, haveria também, segundo a transpessoal, um processo terciário, caracterizado pelo princípio da transcendência.

Para Saldanha (2008), o princípio da transcendência gera sinergia, relações mais cooperativas e harmoniosas em direção à unidade, favorece valores de crescimento e processos criativos superiores. Ainda segundo a autora, esse princípio é responsável pela manifestação das experiências culminantes, que dependem do quanto esse processo terciário está desenvolvido ou é estimulado e integrado na própria vida cotidiana. Conforme a autora, o princípio da transcendência indica um impulso em direção ao despertar espiritual como prolongamento natural da condição humana.

Como tal, essa pulsão (da transcendência) torna-se um objeto de estudo da pesquisa na abordagem transpessoal, um aspecto relevante na promoção da saúde individual, coletiva e na criatividade. Favorece, assim, a percepção mais ampla das situações, possibilitando uma maior capacidade de resiliência. (SIMÃO e SALDANHA, 2012, p. 297)

Entretanto, é necessário diferenciar o conceito de princípio da transcendência, postulado pela transpessoal, do conceito de função transcendente, apresentado pela psicologia analítica de Jung. Na abordagem jungiana, função transcendente é entendida como a união dos conteúdos conscientes e inconscientes. É fundada em dados reais e imaginários ou racionais e irracionais, lançando uma ponte sobre a brecha existente entre o consciente e o inconsciente (PIERI, 2002, apud ELIAS, 2012). Já no princípio da transcendência formulada pela transpessoal entram em jogo outros fatores, conforme define Saldanha:

Na pulsão da transcendência há aspectos que vão além de uma função, indicando uma força espiritual, uma direção evolutiva inerente ao processo de desenvolvimento humano, que segue o seu curso, flui através do Ser no relacionamento interno e externo e para além deste, é algo superior, sagrado, que transcende o que costumamos considerar como nós mesmos, é um caminho além do ego. (SALDANHA, 2008, p. 150)

Ainda segundo esta autora, a função transcendente constitui uma força que, quando não é impedida, expressa-se naturalmente de forma saudável. Por essa razão, trata-se de uma força que pode e deve ser estimulada. As pesquisas sobre sua dinâmica constituem um diferencial no campo da psicologia e por isso podem trazer uma nova perspectiva nos estudos sobre o processo de desenvolvimento humano.

(…) o que denominamos de princípio da transcendência indicaria um impulso em direção ao despertar espiritual que perpassa a humanidade do ser, a própria pulsão da vida, morte e para além delas. O princípio da transcendência envolve a natureza psicológica, descrita por Freud, ampliada por Maslow e Weil. (SIMÃO e SALDANHA, 2012, p. 297)

Transcendência, portanto, na visão transpessoal, não está reduzida a um conceito religioso ou posturas místicas. Refere-se a uma pulsão vital intrínseca à biologia subjetiva do ser humano, mas que pode estar entorpecida por situações existenciais particulares (VASCONCELOS, 2011). Entretanto, os indivíduos que se propõem a reconhecê-la e desenvolvê-la, adquirem uma energia psíquica intensa, que lhes permite enxergar a vida, o universo e a si mesmos de forma integrada.

Quando se fala em “pulsão vital intrínseca à biologia subjetiva do ser humano” não se está definindo o princípio transcendente como mero impulso orgânico ou intrapsíquico, mas enfatizando a sua qualidade de impulso “instintóide”, natural no processo de desenvolvimento humano, conforme explica Maslow:

Os metamotivos, portanto, já não são apenas intrapsíquicos ou orgânicos. São a um só tempo interiores e exteriores […] Isso significa que a distinção entre o próprio ser e o que não o é se desfez (ou foi transcendida). Há agora menos diferenciação entre o mundo e a pessoa… Esta se torna um eu ampliado… Identificar o que há de mais elevado no próprio ser com os valores supremos do mundo exterior significa, ao menos em alguma medida, uma fusão com o que não é o próprio ser. (MASLOW, apud WALSH e VAUGHAN, 1980, p. 182)

O contato com essa energia gera uma nova dinâmica no psiquismo do indivíduo, favorecendo saltos transformadores. Ela permite o enfrentamento saudável de situações difíceis porque revela o lado humano que transcende às dificuldades do ego. Não se trata, porém, de assumir posturas dissociadas da realidade. Transcender não é tornar-se supra-humano e sim transumano. Ou seja, não é negar a condição humana a pretexto de uma pretensa (e muitas vezes falsa) espiritualização, e sim reconhecer, na própria condição humana, com seus aspectos positivos e negativos, o potencial para ir além do ego e do próprio destino.

Para isso, não é necessário estar engajado em alguma ideologia ou corrente filosófica. O essencial é uma síntese honesta entre razão, emoção, intuição e sensação, visando uma tomada de consciência dos próprios recursos internos para sintonizar com o Eu Superior. Conforme ensina Leloup (2003), a vida espiritual nem sempre consiste em ter grandes ideais e maravilhosos projetos, e sim em dar um passo a mais a partir do ponto em que nos encontramos.

Num hospital, é comum a fé emergir de forma inusitada, caracterizando um produto do coping, muitas vezes contrariando a própria história de vida do paciente. Pessoas que antes mantinham distância ou até repeliam o comportamento religioso passam a buscar apoio e a valorizar uma espiritualidade que nunca tiveram. Nessas horas, o doente volta-se para o centro de si mesmo em busca de respostas e a fé consistirá numa importante maneira de transcender à ameaça imposta pela doença, encontrando significados para o sofrimento e mitigando a dor psicológica.

A doença em si ou em pessoas próximas evidencia para a consciência a corporeidade do ser humano. Se, de um lado, impõe limites para os desejos e pretensões das vontade, por outro, conecta a mente com dimensões internas fundamentais com grande potência de operação. Há um grande processo de aprendizado de si mesmo. Valores que antes governavam a vida são relativados. A experiência do eu profundo cria conexões com o cosmo e com os outros, podendo transformar o tipo de relação que com eles se tinha. (…) Assim, é frequente a crise da doença ser porta para o contato com a transcendência. Uma transcendência que se mostra ao se assumir os limites da condição humana, e não ao buscar, no além, uma divindade que está fora do mundo material. (VASCONCELOS, 2011, p. 62)

No caso de muitos pacientes internados, é possível inferir que o estado mental da fé favorece a eclosão do princípio transcendente, razão pela qual os enfermos que desenvolvem uma visão espiritualizada da vida e da morte atravessam com menor carga de sofrimento as dores e constrangimentos impostos pela doença. Com base nos princípios da psiconeuroimunologia, é possível inferir, também, que o estado mental de aceitação e esperança gerado pela crença religiosa ou visão espiritualizada da vida, pode desencadear, por meio do eixo Hipotálamo-Hipófise-Suprarrenal, um processo bioquímico com repercussões nos sistemas imunológico, nervoso e endócrino, gerando efeitos salutares no organismo

Isso ficou evidente, por exemplo, numa pesquisa desenvolvida pelo Departamento de Psicologia e Psiquiatria da Universidade de Miami (IRONSON; STUETZER; FLECTCHER, 2006 apud GUIMARÃES E AVEZUM, 2007). O trabalho avaliou os efeitos de mudanças na religiosidade e na espiritualidade em pacientes soropositivos para o HIV. Os resultados revelaram que em 45% deles houve aumento significativo na religiosidade/espiritualidade, em 42% esse aspecto não sofreu alterações e em 13% houve diminuição. As pessoas que relataram aumento na espiritualidade-religiosidade após o diagnóstico tiveram preservação significativamente maior de células CD4, os leucócitos que regulam a resposta imunológica.

REFERÊNCIAS:

BUCKE, Richard. Consciência Cósmica. São Paulo: Amorc, 2000.

ELIAS, Ana Catarina. A Intervenção RIME enquanto facilitadora da Função Transcendente e do Processo Alquímico, de acordo com a Psicologia Junguiana. São Paulo, 2012. Monografia apresentada à Faculdade de Ciências da Saúde (FACIS) para obtenção do título de especialista em Psicologia Junguiana.

GUIMARÃES, Helio. P.; AVEZUM, Álvaro. O impacto da espiritualidade na saúde física. Revista de Psiquiatria. Clínica. São Paulo, nº 34(1): 88-94, 2007.

IRONSON, Gail; STUETZER, Rick; FLECTCHER, Mary Ann. An increase in religiousness / spirituality occurs after HIV diagnosis and predicts slower disease progression over 4 years in people with HIV. Journal of general Internal Medicine 21: 62-68, 2006, apud GUIMARÃES, Helio Pena e AVEZUM, Álvaro, São Paulo, 2007.

LELOUP, Jean Yves; CREMA, Roberto; WEIL, Pierre. Normose: a patologia da normalidade. São Paulo: Verus, 2003.

PIERI, Paolo Francesco. Dicionário Junguiano. São Paulo: Paulus, 2002

SALDANHA, Vera. A psicologia transpessoal. São Paulo: Komedi/Alubrat, 1997.

A psicologia transpessoal. São Paulo: Unijui, 2008.

SIMÃO, Manoel José Pereira e SALDANHA, Vera. Resiliência e psicologia transpessoal: fortalecimento de valores, ações e espiritualidade. O Mundo da Saúde, 36(2), p: 291-302. São Paulo, 2012.

VASCONCELOS, Eymard Mourão. A espiritualidade no trabalho em saúde. São Paulo: Hucitec, 2011.

WALSH, Roger N; VAUGHAN, Frances. Além do ego. São Paulo: Cultrix/Pensamento, 1980.

WEIL, Pierre. A consciência cósmica – uma introdução à psicologia transpessoal. Rio de Janeiro: Vozes, 1978

Texto gentilmente cedido pelo autor, o terapeuta e jornalista Clayton Levy.

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