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ANTIGOS E NOVOS TERAPEUTAS: REFLEXÕES PARA A CLÍNICA CONTEMPORANEA

Por Vera Saldanha*

Vamos refletir sobre o legado tão antigo e tão atual que os antigos terapeutas nos deixaram. Conhecer os que nos precederam, honrar, trazer a chama e luz deste saber, tecendo relações entre os antigos e novos terapeutas. Se indagar sobre quem são os antigos terapeutas e como refletem em nossa contemporaneidade.

Juntos vamos permitir que nossa imaginação percorra o tempo e o espaço, e nos leve em torno do ano de 332 a.c., ao reino de Alexandre o Grande, Imperador da Macedonia, uma enorme extensão territorial, na qual ele funda Alexandria. Em Alexandria reúne sábios de muitas tradições; Sumérios, Babilonios, Persas, sábios da India, a cultura do Egito, a filosofia grega, comunidade Judaica, o império Celta, e até Budistas.Uma época, um lugar de encontro de civilizações do Ocidente e do Oriente.

Neste solo fértil, ao longo do tempo germinaram e floresceram os grandes e Antigos Terapeutas, considerados verdadeiros filósofos em sua época. Aqueles que amam o saber.

Talvez possamos imaginá-los reunidos em torno do Lago de Mariotis; são homens e mulheres que não se contentavam em dizer, teorizar, especular, mas que buscavam curar-se e curar os males que tocavam sua sociedade.

Muitos tiveram bens; famílias, fortunas; mas renunciavam a eles, deixavam antecipadamente para seus herdeiros para que não se ocupassem de sua administração. Homens e mulheres que optavam pelo celibato, como uma livre escolha e não imposição. Tinham as vestes próprias para a meditação. Alimentavam-se de vegetais e grãos; nenhum animal; e praticavam jejum. Suas refeições eram após o pôr do sol, pois a maior parte do tempo era dedicado ao estudo das escrituras, à meditação dos textos sagrados, aos grandes livros da natureza, do corpo, do coração, do cuidar de si, e do cuidar do outro.

Ás vezes eram confundidos com essênios por seu estilo de vida, porém há algumas diferenças fundamentais: Os essênios viviam no alto do Egito (Qumran) e eram um grupo iniciático formado por homens, e os terapeutas viviam na atual região da Palestina, um grupo iniciático de homens e mulheres; Os essênios acreditavam na predestinação, somos filhos da Luz ou das trevas, enquanto os terapeutas acreditavam que o ser humano pode mudar; Os essenios esperavam um mestre exterior, os Terapeutas esperavam o mestre interior. Os antigos terapeutas recebiam massagem aos sábados, os essênios não se permitiam, além disso, o celibato para os essênios era uma lei, para os antigos Terapeutas, uma opção.

Os antigos terapeutas propunham transformações no modo de existir, de nossas ações, de nosso fazer concreto, de amar, trazendo um sentimento diferenciado no pensar e no imaginar.

Os conhecimentos sobre esses antigos terapeutas nos chegam através de Filon de Alexandria (30 a.c. – 40 d.c.) traduzidos pela maestria de Jean Yves Leloup. Às vezes se especula se de fato eles existiram, pois não há vestígios arqueológicos em Alexandria; mas isto vai de encontro ao que a história relata, que eles habitavam casas de madeira, em regiões altas, ao redor de Alexandria, em lugares de aproximadamente 600m. de altitude.

Tinham ao lado do local do cuidado, o espaço de estudo, de meditação e de prece. Também haviam duas casas: – a do luto, integrar o luto de algo que viveu e que não mais existe e nem voltará a existir; e a casa dos mistérios, local onde integravam as experiências numinosas, trabalhavam o como integrar outras dimensões no cotidiano. Atualmente chamaríamos a estas experiências de emergência espiritual. O trabalho de como integrar aquilo que transborda em nossa psique.

O termo Terapeuta apresenta dois sentidos principais, o de servir, cuidar, render culto e o sentido de tratar, sarar.
O terapeuta era aquele que cuidava do corpo, das imagens que habitavam em sua alma, cuidavam dos deuses, e das palavras (logoi) que os deuses dizem à sua alma. Aqueles que se tornavam terapeutas eram impulsionados pelo amor divino, cheio de Deus, entusiasmados por cuidar do outro. Eram aqueles que sabiam orar pela saúde do outro – chamar sobre o doente a presença e a energia do Vivente, colocá-lo nas melhores condições possíveis para que o Vivente atue e venha curar. Para eles, ninguém cura ninguém. Só o Vivente cura.

Suas práticas de oração iniciavam pela manhã ao nascer do sol clamando: – “Que o dia seja belo, que a verdadeira beleza venha inudar a inteligência com a luz celeste”.

À noite novamente pediam ao terapeuta interno que os ajudasse a compreender mais profundamente as escrituras. Oravam ao Vivente, aquele que É – “Nos alivie dos tumultos das sensações, que os pensamentos se acalmem, que tenhamos sonhos salutares, sonhos de cura”.

A escuta do sonho era como um texto sagrado que devia ser decodificado, interpretado. Para eles os sonhos, tanto quanto as escrituras eram experiências em estados de expansão da consciência.

Além disto, os antigos terapeutas cuidavam igualmente de si – “Um trabalho bem ordenado sobre si mesmo”, diz Jean Yves Leloup (Leloup, J. Y. 2007). Vivenciavam um intenso trabalho consigo próprio por meio de exercícios austeros de autoconhecimento, do reconhecimento do Ser, da atenção ao sono, da atenção aos sonhos e das interpretações das escrituras. Também apreciavam os benéficos efeitos do canto, da dança e da massagem aos sábados.

Pergunta-se atualmente se os antigos terapeutas de Alexandria tiveram sucessores.
Segundo Leloup poderíamos nos referir aos terapeutas (padres) do deserto, mais recente aos monges, que de certa forma esta filosofia estaria presente nos monastérios. Porém para ele, Leloup, isto é verdade apenas em parte. A antropologia que cuida do Ser em toda sua inteireza se perdeu nestes dois milênios. A medicina, espiritualidade, psicologia, teologia, passaram a ser domínios separados, que muitas vezes acentuam ainda mais a doença no ser humano.

Entretanto ao trazermos estas reflexões para o momento presente, observamos outros aspectos que talvez possam ser indicadores de uma nova possibilidade de integração deste antigo conhecimento e da práxis na atualidade.
Nos chama atenção que nas Américas, e especialmente no Brasil temos uma vasta extensão territorial, habitada pelas mais diferentes culturas e tradições espirituais; uma população extremamente heterogênea; agregando europeus e seus descendentes, asiáticos, africanos, norte americanos, orientais, índios, cablocos; todos coexistindo de forma harmoniosa, agregando valores e aspectos distintos do saber.

Na Psicologia, no que tange especificamente a relação com os antigos Terapeutas, na arte do cuidar, na visão antropológica, há uma ressonância mais próxima quando observamos os pressupostos da Psicologia Transpessoal.
Abraham Harold Maslow (1908 – 1970) psicólogo, quando presidente da APA (American Psychology Association) oficializou a Psicologia Transpessoal colocando ênfase no que não está doente no individuo. Propunha olhar para a dimensão saudável do Ser, trazer o inefável, o Transcendente, tal como propunham os antigos Terapeutas, cuidar também do que não é doente, nem mortal em nós.

Ocupar-se como diziam os terapeutas, do que vai bem dentro de nós, olhar para o ponto de luz que dissipará nossas trevas. Favorecer a emergência de valores positivos, acrescentaria Maslow. Para Maslow, os estados elevados de consciência, traziam a torna naturalmente virtudes, denominadas por ele como valores do Ser, intrínsecos à nossa saúde, classificando-os em catorze categorias. Resumidamente são elas: verdade, bondade, beleza, plenitude (transcendência da dicotomia), vitalidade, unicidade, perfeição (necessidade), culminância, justiça, ordem, simplicidade, riqueza, facilidade (suavidade), diversão (alegria) e auto suficiência.

Sem dúvida alguma encontramos os valores do Ser presentes nas práticas dos antigos Terapeutas. Além disso, eles também nos afirmavam que a virtude é a fonte da alegria, e que a alegria é saúde; assim como alertavam que o vício é a fonte da tristeza, e que a tristeza é doença. Ensinavam que a tristeza é estar separado do Ser, é viver como se ele não existisse, dar demasiada importância ao que não é.

Outro aspecto que Maslow deu destaque especial é ao autoconhecimento. Propunha o trabalho Transpessoal na clínica, nas organizações, na educação, evidenciando o que ele chamava de aprendizagem intrínseca, ou seja, o autoconhecimento, o qual deveria estar aliado aos conteúdos programáticos, o conhecimento externo, que denominava de aprendizagem extrínseca. Só o autoconhecimento permitia a emergência dos valores positivos do Ser segundo este autor; aspecto este enfatizado também pelos Terapeutas de Alexandria, afirmando que só o autoconhecimento nos leva a conhecer aquilo que em nós é maior que nós mesmos.

A Psicologia Transpessoal também apresenta uma visão antropológica que nos remete a visão multidimensional do ser humano trazido pelos antigos Terapeutas. Eles apresentavam na terminologia grega: o soma, a psique, o nous, integrados e animados pelo pneuma (ou logos), o sopro.

De acordo com a visão antropológica é que o processo do cuidar acontece, é que a metodologia e recursos são utilizados. Ao cuidar do Soma os antigos Terapeutas nos traziam o cuidar do corpo no vestir, no tocar; ao se alimentar de maneira a degustar o que nos nutre, comungar e não simplesmente consumir, ingerir apressadamente. Para o Soma, relacionamos em nosso enfoque da psicologia Transpessoal, o cuidar das Sensações em toda sua extensão.

Cuidar da Psique nos indica cuidar dos pensamentos e dos sentimentos; as funções racionais segundo Jung; que denominamos como o elemento Razão. Acrescentamos também em nosso referencial o cuidar das Emoções, as quais são manifestadas visceralmente. Para os Terapeutas o contato com a alma acontecia com as emoções. Em suas práticas tratavam de oferecer palavras que não acrescentassem culpa à dor, mas sim de trazer boas palavras ao que nos fez mal.

Sem julgamentos, não se colocavam como modelo. Tinham um acolhimento incondicional, ajudando a resgatar a dignidade, a alteridade do outro; a se perceber como alguém que é capaz de dar e receber amor; uma possibilidade que é extremamente curativa; por mais miserável que o indivíduo possa estar se sentindo.

Cuidavam do Nous, o qual podemos relacioná-lo à Intuição. A dimensão dos arquétipos, das imagens positivas estruturantes (anjo, Deus, entre outros) que podem ser reativadas; o imaginal; com representações saudáveis do homem, da mulher, do próprio eu superior. Representa a dimensão em nós que como uma ponte, orienta o desejo em direção a luz, nos liga à fonte. Em sua escuta atenta, os antigos Terapeutas oportunizavam através do nous um terreno fértil à Presença daquele que É, a qual habita o Ser de todos e de tudo, nada exclui.

A esta Presença que integra, atravessa o soma, a psique e o nous, chamavam-na logos, pneuma, o EU SOU, algo maior que permea as diferentes dimensões do Ser. A oração, a meditação, são práticas que nos acordam a esta Presença.

Esta visão antropológica é representada por meio da seguinte imagem:

Os antigos Terapeutas consideravam as dimensões espirituais como essenciais, as práticas terapêuticas imprescindíveis; entretanto tinham um jeito especial no fazer, uma maneira equilibrada neste saber. O que propõem de fato é um conjunto de atitudes, gestos, atos estruturados e organizados de forma a cuidar do outro integralmente.

Talvez poderíamos entrelaçar alguns referenciais na psicologia ao estudar sobre os antigos terapeutas. Porém observamos esta conexão de imediato com a Abordagem Integrativa Transpessoal. Uma metodologia na psicologia Transpessoal que nasceu justamente da nossa inquietação e deslumbramento com o imenso manancial de conteúdos que a Psicologia Transpessoal nos oferecia. No entanto sua teoria e prática muitas vezes se revelavam em um universo de informações dispersas, amplas, e extremamente subjetivas, dificultando inclusive uma credibilidade a este enfoque.

Entretanto a psicologia Transpessoal por mais paradoxal ou intangível na maneira como se apresentava em alguns autores e em sua praxis, nos parecia que certamente poderia ter contornos, que nos indicassem uma compreensão e construção dentro do próprio referencial da Psicologia como ciência. Afinal tinha em Maslow, psicólogo, o grande responsável pela inserção desta nova linguagem conceitual na Psicologia.

Assim buscamos dentro do âmbito academico desenvolver uma tese, na qual criamos uma organização dos principais conceitos em psicologia Transpessoal, de seus axiomas segundo Maslow; suas relações com a psicologia científica desde William James, e elaboramos um embasamento teórico e dinâmico deste referencial denominando-o de Abordagem Integrativa Transpessoal (A.I.T.), com validação por meio de uma metodologia científica que favorecia a sua aplicação na clínica, educação, organizações e instituições (Saldanha, 2006).

A abordagem Integrativa Transpessoal confere uma perspectiva mais ampla diante da psique, e da própria religião. Sem destituir o sentido do Sagrado, as especificidades das religiões, na A.I.T. (Abordagem Integrativa Transpessoal) busca-se resgatar a sanidade, a inteireza e a própria sacralidade da vida cotidiana, desvinculados dos dogmas ou conceitos religiosos pré estabelecidos.

Definimos então os aspectos estruturais e os dinâmicos nesta abordagem. Em seus aspectos estruturais constatamos que o corpo teórico da Psicologia Transpessoal necessariamente envolve cinco conceitos básicos: – conceito de unidade, vida, ego, estados de consciência, e cartografia da consciência.

O conceito de unidade representa a inteireza, a não fragmentação do Ser, o conceito de vida nos remete ao que não está sujeito a morte e nascimento. O conceito de ego nos traz a realidade do sujeito e objeto, do eu e do outro, necessários ao desenvolvimento humano, mas que sob certas circunstancias pode se expandir e ir mais além. Os estados de consciência são o caminho através do qual o processo transpessoal acontece, e a cartografia da consciência faz a classificação e denominação dos conteúdos que emergem de acordo com o estado de consciência que o indivíduo acessou. Recordamos que os antigos Terapeutas iniciavam seu trabalho com o outro através de identificar em que estado de consciência o indivíduo se encontrava.

Estes cinco conceitos básicos são trabalhados em seus aspectos dinâmicos na inter relação de dois eixos simbólicos: – o experiencial e o evolutivo por meio de sete etapas integrativas. Estas etapas ou passos foram sendo percebidas através da observação e estudos das práticas transpessoais que obtinham resultados positivos.

Acreditamos que estas etapas acontecem nos processos saudáveis do desenvolvimento do indivíduo, mas que podem ser inseridas, acelerados ou reorientados quando a pessoa se perde de si mesmo, emerge a doença e ela precisa de ajuda.

São estas as sete etapas que iremos utilizar na compreensão do conjunto de atitudes pelos quais se pautavam a práxis dos antigos Terapeutas de Alexandria, e que podem nos auxiliar atualmente como setas indicativas de uma prática salutar na clínica contemporânea.

Para eles a dor que não podemos suportar é a “dor que não podemos dar um sentido” (Leloup, J. Y. – 2007). A função do terapeuta é justamente estimular a capacidade da pessoa que se encontra doente, de produzir ou captar o sentido do que lhe acontece, afirmavam os terapeutas, acrescentando que a vida talvez não tenha sentido. O ser humano é que deve dar-lhe uma razão de ser.

Para a Abordagem Integrativa Transpessoal é justamente a fragmentação do ser que impede a construção do sentido. Assim ao nos remetermos a este enfoque, evidenciamos os espaços simbólicos trazidos pelos eixos experiencial (horizontal) e o eixo evolutivo (vertical), que nos permite visualizar e trazer o entendimento desta proposta em seus aspectos dinâmicos. A representação do eixo horizontal indica a importância da congruência entre os elementos psíquicos: Razão, Emoção, Intuição e Sensação (REIS) permeados pelo eixo evolutivo, que nos traz a presença e necessidade do despertar e integrar os diferentes estados de consciência. Os aspectos dinâmicos são representados pela imagem a seguir:

Estes eixos nos falam das fronteiras invisíveis que traçamos em nossa mente, criando espaços psíquicos de fragmentações e dissociações em nosso ser, vivendo aleatoriamente os eventos de nossa vida, sem construirmos um sentido.

Neste referencial trazemos um modelo do desenvolvimento simbólico da consciência humana, o qual sugere que somos parte de uma unidade indiferenciada; uma grande Consciência Universal, Infinita e Eterna. Desta unidade indiferenciada somos lançados à uma dualidade por meio de uma existência corpórea, terrena, constituindo-se de corpo físico, o Soma (Sensação), a Psique (Razão e Emoção), e o Nous (Intuição); representados pelo eixo experiencial quando integrados e desta maneira amplia-se a percepção do indivíduo para o eixo evolutivo.

Muitas vezes nos identificamos parcialmente com um destes elementos (R.E.I.S.), ou cambaleamos confusos entre eles ficando no espaço da fragmentação, da dissociação. Pneuma nos vivifica, nos atravessa; é simbolicamente representado pelo eixo evolutivo, porém no estado de fragmentação não temos consciência desta presença. As sete etapas ao serem estimuladas e vivenciadas nos auxiliam os passos da construção deste caminho de integração, da Presença que nos desperta para a unidade diferenciada, a plena consciência.

Na fragmentação a dor se torna sofrimento insuportável, os acontecimentos obstáculos, barreiras instransponíveis. O prazer se torna vício, dependência e apego; sem comprometimento ou sentido; gerando doenças físicas, psíquicas e sociais. Há uma cisão entre o dentro e o fora, o eu e o outro, atribuindo-se o sofrimento ao acaso, ou circunstancias externas.

Neste caos, sem dar sentido aos eventos da existência, à dor, é que as sete etapas poderão ajudar aquele que sofre a se abrir para as novas possibilidades, a não se sentir impotente diante da própria vida que passa. Estas etapas são: o reconhecimento, a identificação, a desindentificação, a transmutação, a transformação, a elaboração, e a integração, representados por meio da seguinte imagem:

Os antigos Terapeutas trazem um conhecimento transmitido por sábias palavras, gestos e atitudes que nos agregam saber a cada uma destas etapas, mostrando um elo entre os antigos e novos terapeutas ao se caminhar no processo do cuidar do ser.

Para nós o Reconhecimento é um olhar ao redor, um olhar para si, ao que está acontecendo. Os terapeutas exerciam esta etapa ao dizer sobre a doença no indivíduo. Aquilo que estava no sujeito, sua dor.

Mas sabemos que não basta reconhecer, é necessário sentir visceralmente, vivenciar as emoções do quando, o que, onde, é preciso a Identificação. Os terapeutas antigos nesta etapa, identificavam o ego, toda a condição de sofrimento ao eu pequeno que a dor trazia, e tinham uma escuta atenta a esta dor, abriam espaço para sua manifestação.

Somente a identificação é que nos permite o próximo passo, a Desindentificação.
Nesta terceira etapa também encontramos os antigos alexandrinos que propunham a pessoa “desentulhar”, libertar-se dos entraves, não encerrar o indivíduo dentro da doença. Favorecer o despertar do sujeito em cada pessoa. Na Abordagem Integrativa Transpessoal afirmamos que na desidentificação é o momento de ajudar o indivíduo a distinguir o estar do ser; estou doente, mas não sou a doença, ampliando a percepção; torná-lo receptivo ao eixo evolutivo.

Esta percepção nos traz a nova etapa, a Transmutação. Nada é inteiramente bom, nada é inteiramente mau. Tudo pode ser relativizado, nos trazer aprendizado, compreender os paradoxos dos eventos, fatos e circunstancias.
Os terapeutas antigos evidenciavam que não somos impotentes diante daquilo que nos acontece, não somos unicamente objeto das circunstancias, eles favoreciam ao indivíduo sentir-se sujeito dos acontecimentos. Dar tempo, silencio e espaço. Refletiam com ele que poderia ser agora uma ocasião de crescimento, de uma tomada de consciência, que facilitaria a recordação da Presença.

Certamente é esta Presença, que oportuniza a etapa seguinte: – a Transformação. Na Abordagem Integrativa dizemos que há uma rendição, uma entrega, uma passagem; mostramos nesta etapa do processo que o indivíduo traz uma nova resposta para uma situação antiga, ou no dizer dos terapeutas de Alexandria, uma nova maneira de interpretar os sintomas, os eventos. Há o encontro da própria palavra.

Este encontro conduz ao próximo passo; a – Elaboração que traz então o sentido daquele fato, do que era só dor, o qual estava perdido no mar da fragmentação no início do processo, só gerava sofrimento e distancia do Ser.

Este é o momento da contemplação profunda nos lembra os Terapeutas de Alexandria. Mais do que transformar o mundo precisa ser também contemplado. A perda da contemplação é a perda do sentido real.

Na Abordagem Integrativa, sugerimos que na Elaboração ocorre a percepção do Self. Um novo olhar, um olhar de um outro lugar para dentro de si próprio.

Então descortina-se a etapa da Integração. O indivíduo já não é o mesmo, nem tão pouco, a situação. Há um Ser no fazer, há um novo fazer integrado no Ser.

Os Terapeutas antigos afirmam nesta etapa do processo: “Há um enraizamento da pessoa na sua dimensão Transpessoal, no coração de sua humanidade”. Uma integração com a vida que permanece. Com o EU SOU (Leloup, J. Y. – 2007).

O indivíduo integra o humano e o divino. Ser olhado num lugar de si mesmo que é maior que os sintomas, que seu mal, maior que ele próprio nos esclarece os Terapeutas de Alexandria. É a Presença, a escuta da grande vida, o Vivente que se expressa.

Neste momento, as sete etapas se concluem, e tornam a percepção do indivíduo cada vez mais diferenciada. Tornam o individuo mais saudável. Etapas que foram nominadas ao se cotejar uma metodologia no processo Terapeutico em Psicologia Transpessoal. Etapas que também observamos nas descrições da arte de cuidar dos antigos terapeutas de Alexandria. Etapas que acontecem a cada novo passo da vida humana, promovendo cada vez mais sua sanidade, o seu melhor.

Entretanto além de tudo, precisamos nos lembrar da importância na arte de cuidar, do Amor. Com certeza todas as escrituras, meditações, teorias, conjecturas, setas, etapas, indicações, processos ou técnicas, nada disto supera ou deve excluir o Amor.

O amor é um dos estados mais elevados de consciência; nos conduz a um estado de relação curativa que desperta para o EU SOU, recordam os antigos Terapeutas, e manifestavam isto também por meio do acolher, do olhar, do sorrir, dar as mãos, colocar palavras de afeto.

Para eles, a cura passa pelo coração. Sem amor ninguém se livra dos seus males. Cristo, o Mestre que fez do amor o seu mandamento maior ao afirmar “amai-vos uns aos outros, tanto quanto eu vos amei, e “amai ao próximo como a ti mesmo”; talvez tenha desejado nos transmitir “ Amai-vos uns aos outros e a saúde vos será dada por acréscimo”, lembrando-nos da necessidade de amar, cuidar do outro, tanto quanto de nós próprios.

A boa palavra coração que simboliza o amor; o qual traz a cura; nos sugere em seu desdobramento, com coragem e ação; indicando que precisamos vencer o medo do nosso melhor, de amar, como afirmou Maslow no complexo de Jonas, com coragem, com ações amorosas. Fazer com amor, ser no amor (Maslow, A. H. 1976).

Mas a palavra coração, também nos revela outra possibilidade que nos diz Com- Oração, que nos desperta com certeza o amor no coração, sobretudo quando estamos e somos em comunhão com a Oração de Iniciação dos Antigos Terapeutas que nos transmite:

“Que meu corpo permaneça à escuta dos ensinamentos de minha alma.
Que minha alma permaneça à escuta dos ensinamentos de minha consciência.
E que minha consciência permaneça à escuta do Espírito Santo.
Que o mundo da pulsão se submeta ao mundo da alma, da psique.
Que a psique seja iluminada, apaziguada, pelo espírito.
Que este espírito permaneça em comunhão com a Fonte de tudo o que vive e respira…” (Leloup, J. Y. 2007).

Que esta oração seja presente nos terapeutas, despertando-a nos outros seres. Que permaneça cada vez mais a interação entre os antigos e novos terapeutas, para que o resgate da inteireza se faça presente na saúde, na educação, em todos os espaços possíveis de se experienciar a arte de cuidar, trazendo o melhor daquele que cuida, e revelando o melhor naquele que é cuidado.

Referências Bibliográficas
LELOUP, J. Y. Uma arte de cuidar: Estilo Alexandrino. Petrópolis: Vozes, 2007
Cuidar do Ser: Fílon e os Terapeutas de Alexandria. Petrópolis: Vozes, 1996.
Introdução aos “Verdadeiros Filósofos”: Os Padres Gregos: Um continente esquecido do pensamento ocidental. Petrópolis: Vozes, 2003.
MASLOW, A.H. The Father Reaches of Human Nature: New York, USA: Penguin Books, 1976.
SALDANHA, Vera. “Didática Transpessoal”, Tese de Doutorado, F.E. Depto. Psicologia do Desenvolvimento, linha de pesquisa, Psicologia Transpessoal. Unicamp, Campinas, 2006.
Psicologia Transpessoal: Abordagem Integrativa: Um conhecimento emergente em Psicologia da consciência. Ijuí: Unijuí, 2008.


*Vera Saldanha, é psicóloga, doutora em Psicologia Transpessoal (F. E. Unicamp). É especialista em Psicologia Educacional e Psic. Clínica (Unicamp-/CRP).
Possui formação em Psicodrama. É autora de Psicoterapia Transpessoal, Ed. Rosa dos Tempos e Psicologia Transpessoal, Ed. Unijuí. Co-autora de várias obras na Abordagem Transpessoal no Brasil e em Portugal.
Ministra cursos em Psicologia Transpessoal em vários estados do Brasil e Exterior. É presidente da Associação Luso Brasileira de Transpessoal (ALUBRAT).

Comentários(2)

  1. REPLY
    Luiz Quaglia diz

    Vera Saldanha, ótimo texto! Parabéns. Resume de forma inteligente uma parte da espetacular obra de Leloup sobre os terapeutas de Alexandria e os padres do deserto. Conheci pessoalmente vc no congresso transpessoal em Águas de Lindóia, em 2010. Grande abraço.

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